Mortes após cirurgias plásticas reacendem alerta sobre segurança de procedimentos

A morte da empresária Giovanna Coelho Gomes, de 29 anos, após passar por quatro procedimentos de cirurgia plástica em um hospital particular de Belém, colocou novamente no centro do debate os limites de segurança para cirurgias combinadas. O caso está sob investigação, enquanto a família levanta suspeitas sobre a assistência recebida e relata outras denúncias envolvendo o profissional responsável. Para a cirurgiã plástica Carine Barreto, o episódio reforça uma questão que precisa ser discutida antes da operação: até que ponto concentrar diferentes procedimentos em um único ato pode aumentar a exposição do paciente a riscos.
O alerta ganha ainda mais relevância diante de outro caso recente. A influenciadora Marta Kelly, de 33 anos, morreu em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, após complicações relacionadas a cirurgias plásticas. Criadora de conteúdo, ela deixa marido e três filhos. A família ainda não informou quais procedimentos foram realizados nem o que teria provocado o agravamento do quadro. O episódio reforça a necessidade de discutir os cuidados que envolvem procedimentos estéticos e a importância de uma avaliação criteriosa antes da cirurgia.
“Quando vários procedimentos são realizados no mesmo ato, não estamos simplesmente somando cirurgias. Estamos somando tempo anestésico, trauma tecidual, possibilidade de sangramento e estresse fisiológico. A indicação precisa considerar o risco global daquela paciente e não apenas a vantagem de fazer tudo de uma vez”, explica Carine Barreto.
Novas regras reforçam atenção ao tempo de cirurgia
O alerta ganhou respaldo regulatório neste ano. Em maio, o Cremesp aprovou a Resolução nº 400/2026, que veda o agendamento eletivo de cirurgias plásticas estéticas extensas, múltiplas ou combinadas cuja previsão inicial seja igual ou superior a seis horas em um único ato, salvo situações excepcionais com justificativa técnica detalhada no prontuário. A norma também recomenda que procedimentos extensos sejam realizados em etapas distintas sempre que possível e tecnicamente viável.
A resolução determina ainda que o planejamento considere, entre outros fatores, tempo anestésico, número de áreas operadas, associação de procedimentos, condição clínica do paciente e volume aspirado previsto em lipoaspirações. Para hospitais e clínicas, a norma estabelece a necessidade de estrutura compatível com a complexidade do procedimento, equipe habilitada, suporte anestésico, monitorização contínua e retaguarda laboratorial e de terapia intensiva.
Para as especialistas, essas medidas reforçam que a segurança de uma cirurgia começa muito antes da entrada do paciente no centro cirúrgico.
O risco aumenta conforme a cirurgia se prolonga
Um estudo publicado no Aesthetic Surgery Journal, com 1.753 cirurgias plásticas, encontrou associação entre o aumento do tempo operatório e a ocorrência de complicações. A cada hora adicional de cirurgia, as chances de morbidade aumentaram 21%. Em comparação com procedimentos de menor duração, a razão de chances chegou a 1,6 após 3,1 horas; 3,1 após 4,5 horas; e 4,7 após 6,8 horas.
“Não existe um número fixo de procedimentos que seja seguro para todas as pacientes. Antes de combinar cirurgias, precisamos avaliar exames, condições clínicas, índice de massa corporal, histórico médico, previsão de perda sanguínea, tempo anestésico e a complexidade de cada etapa. Se a associação prolongar demais o procedimento, fazer em etapas pode ser a alternativa mais segura”, afirma Carine Barreto.
Segundo a especialista, também é importante que o paciente compreenda que a possibilidade técnica de realizar diferentes procedimentos simultaneamente não significa, necessariamente, que essa seja a melhor escolha.
Segurança também depende do pós-operatório
O período de recuperação também deve ser considerado antes da realização do procedimento. Quanto maior a extensão da cirurgia, maior pode ser a necessidade de acompanhamento, restrições físicas e suporte durante os primeiros dias. Por isso, a escolha do procedimento não deve levar em conta apenas o resultado estético esperado, mas também as condições clínicas e a capacidade do paciente de cumprir adequadamente o pós-operatório.
*Fazer tudo de uma vez nem sempre significa fazer melhor*
Para a especialista, a tendência de concentrar diferentes procedimentos em um único ato precisa ser substituída por uma avaliação individualizada de risco. A decisão deve considerar o perfil do paciente, a complexidade das cirurgias, o tempo estimado de operação, a condição clínica, os riscos anestésicos e a estrutura disponível para atendimento e eventual manejo de complicações.
Mais do que estabelecer uma quantidade máxima de procedimentos, a discussão envolve reconhecer que cada cirurgia apresenta uma combinação própria de riscos e que esses fatores podem se somar quando diferentes intervenções são realizadas simultaneamente.
“A cirurgia plástica não deve ser pensada como uma lista de procedimentos que precisam caber no mesmo dia. O objetivo é entregar resultado com segurança. Quando o risco acumulado deixa de ser proporcional ao benefício de concentrar as cirurgias, é hora de considerar outra estratégia”, conclui Carine Barreto.
Fonte: Assessoria













