Negócios em família mantêm viva história centenária do Mercado Antônio Franco

Às vésperas de completar 100 anos, o mais antigo mercado municipal de Aracaju abriga muito mais do que boxes e mercadorias: reúne personagens que mantêm viva a sua história e, por meio dela, preservam também um pedaço importante da memória da capital sergipana. O Mercado Antônio Franco é feito de gente, de famílias, e de trajetórias que atravessam gerações, resistindo ao tempo e às transformações da cidade.
Inaugurado em 8 de fevereiro de 1926, o Mercado Antônio Franco surgiu como um marco de modernização urbana para Aracaju, centralizando o comércio de gêneros alimentícios e fortalecendo a economia local em um período de reorganização da cidade. À época, sua implantação representou um avanço na estrutura comercial da capital, oferecendo melhores condições de trabalho para comerciantes e de abastecimento para a população. Desde então, o mercado tornou-se um espaço onde histórias individuais e coletivas se entrelaçam.
De um lado, estão as memórias do passado, preservadas por comerciantes que dedicaram décadas de suas vidas ao local; do outro, o retrato do presente, representado por filhos e filhas que deram continuidade ao legado familiar ou encontraram no mercado a oportunidade de se estabelecer profissionalmente, mantendo vivos sobrenomes, ofícios e tradições.
Mais do que um ponto turístico, o Mercado Antônio Franco se firmou ao longo das décadas como um território de memórias, afetos e trabalho transmitidos de geração em geração. Nos corredores onde o cotidiano da cidade se revela, histórias familiares se confundem com a própria história de Aracaju: são trajetórias construídas ao longo de décadas, atravessando reformas, mudanças urbanas e transformações sociais, sustentadas pela permanência de quem fez do mercado não apenas um local de comércio, mas de vida.
Entre essas histórias, está a de Edilza Soares, uma das comerciantes mais antigas do mercado. Com 60 anos de atuação, ela viu o espaço mudar, ser reformado, resistir a dificuldades e se reinventar. Atualmente à frente de um box de artigos religiosos, dona Edilza resume o significado do mercado em poucas palavras: “O mercado representa tudo para mim. Foi aqui que eu criei meus filhos e hoje ainda ajudo a criar meus netos e bisnetos”.
Ao longo das décadas, ela testemunhou momentos marcantes, como um forte vendaval que destruiu parte da estrutura do mercado há mais de 45 anos. “O vento levou as telhas, o prédio ficou danificado. Foi uma coisa muito forte, que marcou todo mundo”, lembra. Ainda assim, sua relação com o espaço sempre foi de gratidão. “Eu só tenho a agradecer a Deus por ter vivido e trabalhado aqui todos esses anos”, afirma.
Esse vínculo atravessou gerações. A filha de dona Edilza, Silvaneide Soares, conhecida como ‘galega das ervas’, está no mercado há 34 anos, iniciando no Antônio Franco, dando continuidade ao ofício aprendido com a mãe, e consolidada no Thales Ferraz. “Eu cheguei a trabalhar no comércio fora do mercado por uns dois anos, mas não gostei. Foi quando comecei a ajudar minha mãe na loja de ervas aqui no mercado”, relembra. Segundo Silvaneide, o envolvimento foi natural e crescente. “Depois de ver meu interesse pelo mercado, ela comprou um ponto para mim. Eu gostei, fiquei com ele e depois minha mãe foi trazendo minhas outras irmãs”, conta.
Hoje, a presença feminina da família é marcante no mercado. “Somos cinco mulheres aqui: uma no artesanato e quatro ao meu lado trabalhando com ervas”, destaca. Para ela, o aprendizado veio da prática e da convivência diária. “A maior faculdade foi a vida. A gente aprendeu trabalhando, com o ensinamento da nossa mãe”, afirma.
Silvaneide explica que o box atende a uma diversidade de demandas ligadas à fé, à cultura popular e ao bem-estar. “As pessoas chegam pedindo ajuda para banho de descarrego, incenso para limpar a casa, imagens de santos ou de orixás, como Iemanjá e Oxum”, relata. Em períodos específicos, como o ciclo junino, Silvaneide diz que há aumento na procura. “Quando chega perto do São João e São Pedro, a venda cresce porque isso representa muito o Nordeste”, acrescenta.
A tradição familiar também se mantém viva entre as irmãs Valéria dos Santos Lima e Vanessa Lima, cujas histórias se entrelaçam com a do mercado desde a infância. Filhas de comerciantes, elas cresceram entre panelas, balcões e clientes fiéis.
Valéria está há 23 anos no mercado e administra o ‘Restaurante da Valéria’, dando continuidade ao trabalho iniciado pelos pais. “Tenho muita honra e dignidade de continuar o legado deles”, afirma. Para ela, o reconhecimento dos clientes é uma das maiores recompensas. “Eles elogiam a comida, o tempero, o atendimento. Isso cria uma relação que atravessa o tempo”, reflete.
A vendedora Vanessa, proprietária do ‘Aju bar e restaurante’, está há muitos anos no mercado. “Esse era o antigo mercado da farinha”, relembra. Ao longo dos anos, ela acompanhou de perto as reformas e a reorganização do espaço. “Antes era tudo misturado. Hoje o mercado está dividido, organizado, e isso ajudou muito, principalmente para atrair clientes”, avalia.
No cardápio, os pratos típicos nordestinos seguem como marca registrada. “O turista vem atrás do carneiro, do sarapatel, do caranguejo. É a culinária que representa o Nordeste”, diz Vanessa. Para o futuro, ela deseja que o mercado seja ainda mais valorizado. “Aqui é o coração da nossa cidade. É importante que haja cada vez mais valorização porque assim também valorizaremos nossa cultura”, avalia.
A cultura popular também encontra espaço e continuidade no box de Joelson de Souza Cabral, que há quase 20 anos mantém vivo o legado do pai, João Firmino Cabral, por meio da venda de cordéis.“Meu pai começou aqui. Depois que ele faleceu, em 2013, continuei vendendo os cordéis dele. Me sinto muito feliz em ajudar a deixar a memória dele viva.”, conta.
Os cordéis comercializados atraem especialmente os turistas que visitam o mercado, interessados em narrativas tradicionais do sertão nordestino. “O pessoal gosta muito dos temas do sertão, das histórias de Lampião, do cangaço, da música nordestina. São esses os temas dos cordéis que eles mais procuram”, conta. Segundo Joelson, muitos visitantes já chegam ao box com uma ideia do que desejam comprar. “Eles já vêm procurando esses temas, olham, escolhem e acabam levando”, afirma.
Dentro desse mosaico de histórias, o percurso de Jouse Vieira sintetiza o vínculo profundo entre o Mercado Antônio Franco e as gerações que ajudaram a mantê-lo vivo. Há mais de 33 anos no local, ela chegou ainda jovem a Aracaju, vinda de Arapiraca (AL), e encontrou no mercado o espaço para construir não apenas a carreira, mas a própria vida.
“O mercado me deu tudo o que eu tenho. Sou muito orgulhosa de dizer que trabalho aqui”, afirma. Jouse conta que o início foi simples, alugando uma cadeira em uma barbearia, até conquistar o próprio box, onde permanece por mais de três décadas. Nem mesmo o período de três anos de reforma, entre 1997 e 2000, quando precisou deixar o mercado e enfrentar a instabilidade fora dali, rompeu o vínculo. “Foi um tempo difícil, mas eu sempre soube que ia voltar”, lembra.
Na vida de Jouse, a relação com o Antônio Franco também foi cenário para alguns momentos especiais, entre eles, a maternidade. “Eu gerei meus filhos praticamente aqui. Um deles eu carreguei os nove meses dentro do mercado”, conta. Hoje, Jouse observa as transformações com gratidão e pertencimento. “Isso aqui é um paraíso”, define. Para ela, preservar o mercado é preservar histórias. “Esse lugar é parte da minha vida. O que eu sou, eu devo a ele.”
Neste século de existência, o Mercado Antônio Franco celebra não apenas sua arquitetura ou importância turística, mas também as famílias que sustentam sua história e a faz permanecer viva, resistindo a inevitável passagem do tempo. Sobrenomes que permanecem nos boxes, ofício que passa de mãe para filhas, e histórias de vida que se confundem com a própria história de Aracaju. Um mercado feito de gente e pertencimento, cuja memória do passado ainda encontra morada no presente, sobretudo quando há o convite à recordação.
Fonte: PMA











