Nó no trânsito: área de escolas é desafio da SMTT
O retorno às aulas aumenta em 40% o fluxo de veículos circulando todos os dias nas ruas de Aracaju. Isso requer uma atenção redobrada dos agentes da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT), mas, principalmente, dos motoristas. Os maiores problemas encontrados pelos agentes ocorrem nas proximidades das maiores escolares particulares: engarrafamento causado por pais que param em fila dupla porque querem deixar os filhos na porta dos estabelecimentos.
Desde a semana passada que a SMTT reforçou a fiscalização nas grandes escolas e o trabalho vai ser estendido a partir desta segunda, pois alguns estabelecimentos iniciam as aulas. O diretor de trânsito da SMTT, coronel José Carlos Tavares Cruz, explica que o fluxo aumenta porque, além dos pais que levam os filhos, há também as vans escolares que durante as férias não circulam com tanta frequência. “Além das escolas particulares, temos que lembrar que o tráfego é intenso durante a noite, pois temos as universidades”, destacou o diretor.
Ele explicou que os agentes vão orientar o trânsito, não serão permissivos, mas também não serão intransigentes. “Eles têm que agir com bom senso. Eles têm que analisar o que está ocorrendo e tomar a decisão”, disse o coronel. A dona de casa Laurice Cordeiro Nascimento já contou com o bom senso de um agente. Ela disse que estava parada em fila dupla e, ao ser abordada, explicou que aguardava a filha que não estava se sentindo bem. Mas Laurice reconhece que parar em fila dupla trava o trânsito, atrapalha os demais motoristas.
Com uma frota de 295 mil veículos na capital, o coronel Cruz diz que não pode generalizar quando questionado sobre a educação dos motoristas aracajuanos. Para ele, há uma minoria que comete infrações, que atrapalha o trânsito ‘e motoristas com esse perfil estamos autuando”. Além do trabalho dos agentes, desde janeiro que a SMTT pode aplicar multas ao verificar uma infração pelas 27 câmaras de monitoramento. Dessas 27, doze delas são móveis, ou seja, os agentes podem aproximar ou afastar a imagem. E as outras 15 são dos equipamentos fixos. Até o final do ano, a SMTT quer implantar 100 equipamentos de fiscalização eletrônica.
Impossível
O arquiteto e urbanista Ricardo Mascarello, mestre em Engenharia Civil na área de edificações e comunidades sustentáveis, diz que as cidades não estão preparadas para o crescente número de veículos circulando. “É quase impossível prepararmos uma cidade para a demanda de veículos. A proporção que o número de veículos aumenta jamais terá compatibilidade com a capacidade do sistema viário. Aracaju teve um crescimento de veículos nestes últimos 10 anos bem acima da média nacional. Devemos sim fazer algumas intervenções prioritárias no sistema viário para um melhor funcionamento, mas o mais importante é planejarmos e pensarmos uma cidade dinâmica não apenas de vias para carros particulares”.
Ele diz que se deve pensar uma cidade e seu desenho urbano para as crianças, para os jovens e idosos em um caminhar à frente onde a circulação de pessoas nas calçadas seja prioridade, para os ciclistas circularem com segurança, para o transporte coletivo fluir e absorver as demandas através da miscigenação coerente de modais. Um ponto importante é respeitar a quilometragem máxima de 60 e 40 km para que os ciclistas compartilhem as vias onde não há ciclovias e os pedestres tenham mais apropriação do espaço.
Sobre o retorno às aulas, Mascarello entende que os equipamentos escolares existentes na cidade devam ser objeto de projetos de intervenções pontuais através de um desenho urbano (ajustes na geometria viária no entorno do equipamento) para melhor se adequarem aos seus contextos, evitando assim, problemas de filas duplas e conflitos pontuais no trânsito.
“Esta ação deve ser projetada para cada equipamento específico verificando-se a possibilidade de recuos, faixas secundárias e sinalização. Relativo à futura implantação de novos equipamentos, precisamos que os órgãos governamentais competentes exijam efetivamente e seriamente relatórios de viabilidade comprometidos com os futuros impactos de vizinhança e de geração de tráfego”, frisou.
“Temos visto em Aracaju uma falta com este comprometimento. Devemos exigir adequações para a implantação dos novos equipamentos geradores de tráfego e para os que já existem devemos fazer projetos pontuais para melhor organizar o trânsito nos momentos de picos. Proferi uma pequena palestra neste último Fórum de Bicicleta organizado pela expressiva Ong Ciclo Urbano e lá falei: é preciso fazer projetos de intervenções viárias pontuais para cada testada de escola, analisar as possibilidades de recuos e acessos. Ou seja, vamos ter mais atenção com o planejamento dos futuros projetos e nos que já existem propor soluções pontuais para amenização dos problemas. Isto exige vontade e trabalho focado em planejamento e ação”, contou.
Questionado sobre a educação dos motoristas, já que é muito comum ver estacionamentos em fila dupla na porta das escolas, Mascarello vê nessa questão profundos conflitos. “Educação no trânsito é fundamental e realmente devemos aprimorar ações educacionais mais efetivas. Aracaju às vezes parece uma cidade sem lei. Motoqueiros frequentemente avançam semáforos e trafegam em sentido proibido! É impressionante situações que convivemos a cada dia. Com relação à utilização das vagas de deficiente e idosos por pessoas inadequadas, entendo que não se trata de educação... Se trata de respeito, de ser gente, de urbanidade”, completou.
“Todos sabem que estas vagas são para pessoas que necessitam de cuidados especiais. Quem não respeita isto não é por falta de educação, é por falta de ser cidadão... Por falta de respeito! Vamos a cada dia transmitir para nossas crianças e jovens respeito e atitude para com o próximo! Assim teremos uma perspectiva futura de bom convívio mútuo na cidade. O mesmo se traduz no diálogo urbano entre os modais. Devemos definitivamente entender a hierarquia do trânsito. A lógica de priorização é: primeiramente o pedestre, depois os ciclistas, seguindo-se do transporte coletivo. Nesta lógica, os veículos particulares sempre deverão dar prioridade para o transporte coletivo”, completou.
Público
Para Mascarello, é necessário um transporte público de qualidade, com conforto, agilidade e mais frequência. Organizar um sistema dinâmico com respeito aos ciclistas e calçadas que priorizem o pedestre. Desenhar e executar um desenho de cidade onde os modais possam conviver harmonicamente entre si.
Ao ser questionado sobre um possível sistema público pelo Rio Sergipe, Mascarello acredita que Aracaju pode sim ter esse sistema. “O problema aqui é que sempre ficamos especulando possibilidades! Sobre esta questão, entendo que se deve fazer seriamente um estudo de viabilidade técnica envolvendo demandas, destinos, relações de tarifas e investimento e analisar o tipo de embarcação e sua viabilidade técnica. Para isto, precisamos e clamamos por planejamento técnico. Não há! Há promessas políticas sem arcabouço técnico”, afirmou.
Ele lembra que recentemente foi implantada uma ponte sobre o Rio Poxim conectando o Inácio Barbosa ao Augusto Franco. Esta ponte possui uma altura que praticamente não permite passagem de embarcações. “Um absurdo para Aracaju. Ao invés de ficarmos com especulações, vamos urgentemente fazer um estudo sério de viabilidade técnica e econômica. Só assim teremos a efetividade da especulação. Se trata aqui de planejamento urbano para ações futuras”, destacou.
O arquiteto defende o aumento das cliclovias. “Aracaju já possui um sistema cicloviário considerável e alguns circuitos deveriam ser consolidados com complementação de execução da malha cicloviária. É importante destacar que não se trata aqui apenas de ciclovias. Se trata articular repensando um sistema viário onde os modais possam conviver conjuntamente. “Nem todas as vias comportam ciclovias e, sendo assim, o mais significativo é o respeito e convívio dos modais. A bicicleta deve fluir conjuntamente com os veículos, lembrando sempre a hierarquia da mobilidade: em primeiro o pedestre, em segundo os transportes não motores, em terceiro o transporte público motorizado. Neste sentido, os ciclistas devem circular na própria faixa veicular, sendo respeitado no conjunto do trânsito”.
“Por fim, acredito em uma cidade mais humana, entendo que além das questões técnicas, a iniciativa de políticos mais humanos e pessoas pensantes seja o fator principal para uma mudança efetiva! Um rearranjo social que envolva gestão pública e sociedade. Eu acredito na coletividade e em uma urbanidade social. A utopia faz a vida, basta acreditarmos e agirmos”, finalizou.











